Vivemos em um tempo muito ocupado, em que nossas vidas transbordam atividades, algumas alegres, algumas dolorosas, algumas gratificantes, outras não. Conta-se muito a história de um homem de uma região do norte do Tibete que decidiu fazer uma peregrinação com seus amigos até o Palácio Potala, a residência de um monge em Lhasa, um lugar muito sagrado. Era uma viagem que marcava uma pessoa por uma vida inteira. Naqueles dias não havia carros ou veículos de qualquer espécie na região, e as pessoas se locomoviam a pé ou a cavalo. Demorava-se bastante para chegar a qualquer parte, e era muito perigoso ir muito longe, já que inúme ladrõesbandidos assaltavam viajantes incautos. Por esses motivos, a maioria das pessoas nunca deixava sua região natal, do nascimento à morte. A maioria delas nunca havia visto uma casa; moravam em tendas pretas tecidas com fibra de pêlo de iaque.
Quando esse grupo de peregrinos finalmente chegou em Lhasa, o homem do norte ficou assombrado com o Palácio Potala e seus múltiplos andares, suas janelas e a vista espetacular da cidade que se descortinava do interior. Ele enfiou a cabeça por uma abertura bem estreita que servia de janela para ter uma visão melhor, girando a cabeça para direita e para esquerda, enquanto olhava a vista lá em baixo. Quando seus amigos o chamaram para ir embora, ele puxou a cabeça para trás, com um solavanco forte, mas não conseguia tirá-la da janela. Ficou muito nervoso, puxando de um lado para outro.
Por fim, concluiu que estava realmente entalado. Então, disse a seus amigos: “Podem ir para casa sem mim. Digam à minha família que a notícia ruim é que morri, porém a notícia boa é que morri no Palácio Potala. Haveria lugar melhor para alguém morrer?”. Os amigos eram também gente muito simples, de modo que, sem muito refletir, concordaram e foram embora. Algum tempo depois, o zelador do templo apareceu e perguntou: “Mendigo, o que você está fazendo ai?
“Estou morrendo”, ele respondeu.“Por que acha que está morrendo?”“Por que minha cabeça está entalada”.“E como é que você a pôs ai?”“Eu a enfiei fazendo assim”.O zelador respondeu, “Então, tire-a da mesma maneira que entrou!"O homem fez o que o zelador sugeriu, e soltou-se. Como esse homem, se conseguirmos enxergar onde é que estamos presos, poderemos quebrar nossas amarras e ajudar os outros a fazer o mesmo. Contudo, primeiro, precisamos entender como viemos parar onde estamos.




