Esta é a fábula do bambu vaidoso. Havia um rei, lá no oriente, que todo dia ao entardecer ia passear no seu magnífico jardim. De tudo o que o rei havia mandado plantar, mudas importadas de todas as partes do mundo, o que ele mais admirava era o pé de bambu e os bambus do oriente são realmente admiráveis pelo seu porte majestoso. De todos os habitantes do jardim real, o mais bonito e amado pelo rei, era o nobre e charmoso bambu. A verdade é que, conforme crescia, o bambu se tornava mais gracioso e como em toda boa fábula, os animais falam e as árvores têm sentimentos, aqui não podia ser diferente.
Conta-se que o bambu estava consciente da admiração e amor que o rei sentia por ele, mas não deixava aquele sentimento lhe subir à cabeça, pelo contrário, permanecia humilde e belo. Ninguém é de ferro, por isso, muitas vezes quando o vento visitava o jardim, nosso amigo deixava de lado a dignidade real e coreografava sua alegria. Dançava, balançava e se sacudia até não poder mais na solidão do jardim. O rei muitas vezes chegava em meio a esse show solene da natureza, dirigido pelo seu bambu preferido e ficava extasiado com a festa. Depois de muitos anos o rei aproximou-se do bambu e começou a analisá-lo com olhar de expectativa e curiosidade. Sentindo a presença real, o bambu fez uma reverencia, baixando a sua cabeça até o chão.
O rei então iniciou o seguinte diálogo com o bambu: ___ Eu tenho feito planos envolvendo você amigo bambu. Eu pretendo usá-lo em um de meus projetos. ___ Pode me usar como quiser, meu senhor! Respondeu prazerosamente o bambu. ___ Só tem um detalhe, para usá-lo eu terei de cortá-lo. ___ Cortar-me! Logo eu em quem meu senhor tem investido tanto me fazendo o mais belo entre todos os habitantes do jardim! Seria possível usar-me, sem cortar-me, meu senhor? Exclamou aterrorizado o pobre bambu. ___ Infelizmente, não. Se eu não cortá-lo, jamais poderei usá-lo, respondeu gravemente o rei. Naquele momento fez-se silencio sepulcral no jardim e até o vento prendeu a respiração. O bambu ficou alguns segundos cabisbaixo e pensativo, mas logo respondeu: ___ Oh soberano, se não podes usar-me de outra maneira então me corte! ___ Meu amigo, além de cortá-lo, terei de arrancar suas folhas e ramos. ___ Oh rei, além de me jogar por terra, tirarás minhas beleza também, tem certeza de que será preciso fazer isso para eu ser usado pelo Senhor? ___ Sim amigo bambu, se eu não lhe podar, jamais poderei usá-lo e vou dizer mais, depois de lançá-lo por terra e podá-lo, terei que abri-lo ao meio e arrancar o seu coração – gomos.
Naquele momento o sol escondeu a sua face e uma linda borboleta assustada voou para longe. Apesar de sentir antecipadamente as dores que o aguardavam, o bambu resolveu trilhar o caminho da obediência e da submissão e quase sem voz respondeu: ___ Pode começar o processo meu soberano. Então cortaram o bambu, jogaram-no por terra, arrancaram seus ramos e folhas, dividiram-no em duas partes e tiraram aqueles gomos de seu interior – seu coração - e depois o levaram a um córrego de águas cristalinas que ficava bem no meio dos campos secos daquele reino. Deitaram as duas partes do bambu colocando uma ponta em contato com a água do córrego e a outra no sulco que conduziria a água aos lugares secos e foi então que a água cristalina do riacho correu alegremente através do corpo dilacerado do bambu até chegar nos campos secos e necessitados de irrigação.
A água trouxe vida à terra seca e logo vieram os camponeses e semearam arroz. Em pouco tempo surgiram às primeiras folhinhas verdes que logo cresceram, produziram frutos e chegou o dia da grande colheita, que iria matar a fome de milhares de homens, mulheres e crianças do reino. Naquele dia o bambu entendeu todo o propósito de seu soberano ao tirá-lo do conforto do jardim real e permitir que ele passasse por tantas dores e sofrimento.
Antigamente ele fora tão lindo e maravilhoso à vista das pessoas, mas agora, humilde e quebrantado, tornou-se instrumento e canal de vida abundante para milhares de pessoas o que o fez sentir-se melhor do que antes.




